
Hoje as meninas continuam a sonhar com o casamento, mas em vez de bordados e de culinária, procuram outras formas de agradar aos homens e é aqui que entra em campo a dança do varão. O varão democratizou-se, deixou de ser feudo dos clubes de strip e de outras casas de fama incerta. Apesar do eterno estigma sobre as actividades lúdicas, nos meios mais evoluídos, uma prostituta não é exactamente o mesmo do que uma stripper e uma stripper não é exactamente o mesmo do que uma dançarina exótica, embora no final tudo venha a dar ao mesmo: fomentar o desejo sexual nos homens. Ora se umas botas altas, uma lingerie sexy e uma coreografia à volta de um varão de aço fazem os homens felizes, por que não fazer um show privado, surpreendendo a nossa cara-metade com uma exibição caseira, semiprofissional, esforçada e dedicada? É o conceito do home cinema, do 'faça você mesmo' ao serviço do prazer doméstico, a bem da harmonia do casal.
Há quem core de vergonha, se escude no pudor e diga 'nem pensar' enquanto tapa a boca com a mão, e há também quem se dedique de alma e corpo a entrar na dança. A frequência destes cursos é eclética: tanto podem ser candidatas a trabalhadoras de clubes nocturnos como contabilistas, professoras universitárias, advogadas, gestoras e até educadoras de infância. O varão faz com que as mulheres possam encarnar uma personagem, vestir a pele da outra, que é a sedutora, a amante, a devassa, a louca, a que usa o seu corpo para seduzir os homens e fazer deles o que quer. O mais irónico é que muitas das mulheres que frequentam as aulas do varão com devoção e afinco são as mesmas que receberam uma educação esmerada, intoxicada de preconceitos, que professava que uma senhora não faz isto e aquilo porque parece mal, bebendo desde pequenas, juntamente com o leite com chocolate, uma série de ideias feitas, entre as quais não consta enquanto qualidade a de saber pendurar-se no varão e descer de cabeça para baixo com as pernas abertas para depois se rebolar no chão, sempre de rabo espetado, e voltar a levantar-se para mais 30 voltas em redor do aço erecto.
Então por que razão aderem estas mulheres à dança exótica? Porque se querem sentir poderosas, porque querem libertar a fera que há nelas, porque se sentem livres, porque se divertem. E, já agora, porque os namorados e os maridos adoram. Nem sempre o assumem, poucas vezes o partilham com os amigos, mas a verdade é que também eles se divertem. Afinal, a teoria de Marco Paulo da lady na mesa e da louca na cama é sábia e certeira; se for possível juntar o dois em um, porque não? É tudo uma questão de varão.
Margarida Rebelo Pinto, jornal "Sol" (09/10/2009)